Quando pensamos que já vimos de tudo, é aí que deparamos com o imprevisível... E muitas vezes esse imprevisível nos assusta, tamanha é a sua improvável possibilidade de acontecer em nossas vidas, em nossos caminhos, são escolhas das quais jamais seríamos capazes de fazer, mas que deparamos com alguém que teve a grandeza, a coragem e o desprendimento de tentar...
Bem, semanas atrás tive o prazer de conhecer uma pessoa totalmente diferente de todas as que já haviam conhecido até então... Diferente não em seu corpo físico, mas em suas ações, seu jeito que escolheu pra viver, para experienciar a vida, pra carregar seus fartos, da forma como enfrentou seu mundo...Tão jovem ainda, mas pareceu-me já ter vivido 100 anos, tamanha sua sabedoria, capacidade de desprendimento a tudo, tamanha sua visão global de mundo. Disse-me, que aos oito anos foi para o mundo, por opção, escolha essa diferente das que vemos hoje, mas invés de ficar nas ruas, escolheu um ferro velho abandonado pra ser sua moradia diária, seu lar, e ali pra não ficar totalmente só, não porque se sentisse só, arrumou como companhia um cachorro vira latas, um gato mestiço, um papagaio e um senhor andarilho de 45 anos. Segundo ela, procurou ter juntamente a se, todos os possíveis convívios, pra que não perdesse a oportunidade de aprender com esses, o que precisaria aprender em termos de convivência, senão seria apenas mais um ser humano, e isso ela não queria, queira mesmo experimentar a vida de uma forma diferente dos demais...
Quando lhe perguntei, como foi sua convivência com cada um?
Ela então me disse que:
- Com o cachorro aprendi o que é: fidelidade; amor incondicional; coragem pra enfrentar o mundo sem medo de perder se preciso for; aprendi a simplicidade; a determinação; a servir ao próximo com verdadeira doação; e também aprendi que devemos ser humildes e aceitar nossa condição, seja essa qual for nesse mundo; aprendi a ser companheira pra todas as horas; a ser guardiã dos que me confiaram essa missão...
- Com o gato aprendi: a ser sensível, mas experto; a confiar desconfiado; a estar presente numa troca de caricias e ficar agradecido; aprendi que se tem que doar, mas que é de suma importância receber também, pois a vida é uma troca mútua, mas espontânea; aprendi que devemos viver com mansidão, nada de correria; mas que também precisamos adular esmorecer os corações quando queremos algo de alguém, que às vezes nos mostra resistência, mas que com doçura conseguiremos o que queremos; aprendi também que se o outro não sede, o melhor a fazer é deixa-lo, dar tempo ao tempo e sair de fininho e esperar sabiamente, sem se humilhar, pois chegará a hora em que ele virá, voltará por suas próprias pernas...
- Já com o papagaio: aprendi que devemos falar tudo o que estamos sentindo, guardar para si é nos manter no anonimato, é se omitir, e isso nos faz endurecer o coração; aprendi que devemos fazer graça, levar a vida com alegria e levar alegria aos outros também; aprendi que devemos ser sempre agradecidos a quem nos doa seu tempo, ou o que quer que seja; aprendi também que podemos fazer da vida uma festa; que às vezes teremos que nos equilibrar de cabeça para baixo, para assim provar a nós mesmo que somos capazes de vencer qualquer desafio que a vida nos promover, e assim então nos fortalecer diante dos percalços, mas com alegria; aprendi que se um dia ficarmos engaiolados, ainda assim devemos falar, cantar, assoviar, alegrar-se, porque nem todos nasceram para serem livres, e a liberdade está em nós, e não é o fato de estarmos preso a uma gaiola que nos sentiremos aprisionados, podes muito bem ser livres assim mesmo, liberdade é um estado de espirito...
Dai então perguntei... E com o homem, o que aprendeu?
- Ah com o homem... - Aprendi que somos pequenos demais e perdemos tempo com coisas das quais não deveríamos, como por exemplo: se não temos, não conquistamos da vida o que tanto queremos, temos duas opções, ou partir pra luta com coragem pra alcançar como faz o cachorro, ou então fazer como o gato, sair de fininho e esperar a hora certa de poder conquistar... - Nós humanos, queremos muito uma coisa, mas nem sempre lutamos pra tê-la, e normalmente jogamos a culpa no outro pelos nossos fracassos, e ainda nos sentimos na condição de vitimas. - Aprendi que nós nos sentimos como se fossemos Deus, e que ser Deus para nós é ser donos do mundo, das nossas vontades e das vontades alheias também; que tudo tem que vir na hora que queremos e como gostaríamos que fosse e de preferência sem nenhum esforço; aprendi também o egoísmo, pois esse homem me mostrou que quando se consegue algo não se deve dividir com os outros, o mérito foi somente seu então só você pode usufruir daquilo que conquistou.
- Ah, outra coisa que aprendi, foi que o amor do homem é diferente do AMOR do cachorro, do gato e do papagaio, é um amor interesseiro, prepotente, possessivo e sempre exigindo algo em troca... - Todas as vezes que me deu carinho, atenção, “amor”, foi me cobrando algo como recompensa, por várias vezes tive que limpar suas botinas velhas e sujas, coçar sua cabeça quando solicitava, tê-lo em meu colo e fazer lhe cafuné, ir à rua pra conseguir o que comer e com ele dividir, fazer todas as tarefas de nosso humilde lar, lhe proporcionar prazeres e jamais recebi dele um muito obrigado, ou um elogio sequer, ou ao menos sinais de gratidão, era como se eu tivesse a obrigação de tudo ter que fazer pra ele, por ser mais nova ou menos experiente...
- Outra coisa que aprendi com esse homem: é que mulher é um ser inferior; subestimou-me o tempo todo, sempre me mostrava que eu era fraca, que nada conseguiria se ele ali não estivesse comigo pra me dar apoio, respaldo.
E o que tirou dessa lição então...?
- Bem, fiz um balanço de tudo, e optei por pegar tudo o que aprendi com todos, e ser uma mistura de tudo o que de melhor vivi, aprendi... - Hoje carrego comigo um pouco do cachorro, do gato, do papagaio, e do homem só tirei de proveito uma lição...
Sim, e qual foi...?
- Ser, fazer tudo diferente do que ele me passou, me mostrou, porque as lições de meus outros companheiros foram-me de maior grandeza, me provou que serei melhor como ser humano se tiver mais do cachorro, mais do gato, mais do papagaio e menos do homem...
- Não foi fácil, porque a natureza humana está impregnada em nós, já nascemos com essas fraquezas de caráter, condição essas adquiridas por Eva e Adão quando foram expulsos do paraíso, mas que nem por isso, estamos condicionados a ser eternos detentores do pecado, podemos sim ser melhores, ver o exemplo nos animais que, apesar de ser irracionais, agirem por instinto, sabe nos dar lições grandiosas do quando podemos ser melhor.
E hoje, você com a idade que tem, acha que valeu a pena que já aprendeu tudo...?
- Não, claro que não! - Ainda tenho muito a aprender... com os pássaros, com o elefante, com a cobra, com o tigre, com o cordeiro, com a coruja, etc....
- A vida é um eterno aprendizado, estou com 40 anos, mas me sinto como que se apenas estivesse começado essa caminhada, tenho muito a aprender ainda com a bicharada, pois nunca estamos prontos, o dia que acreditar que estou, é por que já morri e ainda não percebi isso ainda...
- Dessa vida não levamos nada, e nosso maior tesouro é o que vamos aprendendo, vivenciando e dividindo por meio de nossas ações com nosso próximo... - Aprender e não dividir o que aprendeu e perda de tempo, é o mesmo que ficar fora da gaiola, mas aprisionado a nós mesmo.
Ps.: Depoimento de uma pessoa que conheci nas ruas de minha cidade, a qual me encantou com sua alegria, sinceridade, capacidade de doação, desprendimento e muito jogo de cintura, embora levando uma vida tão precária e desprovida de tudo o que um ser humano a meu ver merece. Hoje minha grande e especial amiga, da qual não abro mão de sua convivência mais, tamanha a grandeza de seu caráter.
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